Thursday, September 04, 2014

Uma Andorinha amarela na Esplanada


O dia começou tenso, com o Adriano dizendo que não iria poder voar. Eu tinha o carro e ele o resgate. Enquanto procurava companhia e resgate pro voo, estava decidido a ir pra rampa de qualquer jeito, mesmo que deixasse o carro para buscar depois, tamanha era a minha vontade no dia. Eu sabia que seria a primeira chance do ano de realizar o sonho, pois vinha acompanhando a previsão diariamente desde a semana do Campeonato Brasileiro, esperando o dia em que a condição apontasse uma possibilidade de realizar o voo da esplanada.

Todo piloto que começa a voar em Brasília sonha com o dia em que pousará na Esplanada dos Ministérios, no meio da capital do país, concluindo o clássico voo de 72km. É conquista certa para todos que persistem no esporte, evoluem e trocam de asa para uma de alta performance. Porém, até então ninguém havia realizado esse voo com uma asa de baixa performance. Muitos diziam que isso era impossível. Mas eu acreditava que realizar esse voo com asa de iniciante era viável desde o meu segundo voo quando voei 29km com zero de experiência em voo de Cross Country pousando junto com o Rodrigo já no DF. Já acumulava horas de leitura e bate-papo com pilotos experientes, mas essa havia sido a primeira experiência prática. Com o tempo, eu poderia voar 2,5 vezes essa distância.

Achava que somente entre setembro e outubro eu teria chance de realizar o voo, mas numa segunda-feira a previsão para a próxima quinta era favorável onde o teto subiria para 4000m e o vento que teimava ficar em sudeste há semanas, diminuiria e ficaria entre leste e nordeste. De última hora, o Douglas me passou o telefone do Paulo de Sobradinho. Santo resgate e cara gente boa. Fomos pra rampa.

Pronto para decolar, o Rodrigo, grande amigo que encontrei no voo, e parceiro de todas as minhas grandes emoções nesse esporte, me intimou a birutar para os outros. Pô, sacanagem! Os caras com asa de alta performance, e eu sairia primeiro? As asas de alta voam o dobro da distância com a mesma altura e 50% mais rápidas. Tentei argumentar, mas a minha vontade de decolar rápido me colocou já na cara da rampa. Não queria perder tempo. Decolei e procurei por térmicas em frente a rampa e nada. Esses caras vão esperar eu encontrar algo para decolar? Corri para a esquerda, em direção a térmica residente na ponta. Pá! Ela estava lá. Em 3 minutos de voo eu já estava subindo rápido. 300 metros acima e só então eles decolaram. Eu já estava bem a frente. Enquanto subia eu via eles procurando a bendita que me carregava para cima. Nada de subirem. Fui embora rumo aos 3500m. Na tirada em direção ao Gap eu os vi pousando atrás da rampa. Voaria sozinho nesse dia.

Frio desgraçado. Devia estar uns 6 graus. Estava quase me arrependendo de não ter vestido as luvas. Elas estavam pequenas para as minhas mãos e eu já havia as abandonado há alguns voos.

Olhando agora, a primeira parte do voo, até chegar a Reserva das Águas Emendadas que fica antes de Plantalina, até que foi fácil. A decisão de abortar a atravessia da lagoa de Brasilinha e voltar para a estrada foi acertada. Apesar das núvens de lá apresentarem uma condição muito melhor, o caminho até a cidade goiana era por grandes térmicas afastadas. Eram passos muito grandes para a minha Andorinha. O jeito foi buscar o caminho mais longo. Após algumas paradas em térmicas fracas para aproveitar tudo o que eu encontrasse e alguns momentos de ralação e medo de que o voo terminasse antes que eu queria por ficar relativamente baixo, já perto da reserva encontrei uma boa ascendente salvadora, rápida e constante.

Chegando na base da núvem, estava decidido a entrar um pouco, mas sem perder toda a visibilidade, foi quando eu avistei de 200 a 300 andorinhas em bando, bem no meu rumo. Se aproximavam rápido e voavam de forma caoticamente sincronizadas. Em segundos, estava numa das cenas mais incríveis da minha vida. Andorinhas por todos os lados, eu estava bem no meio delas. Eu era uma enorme Andorinha amarela de voo desengonçado, cercada por centenas de pequenas andorinhas pretas que voavam com maestria em um cenário totalmente branco. Olhei para o meu celular preso na asa, estava a 4080m de altitude, num frio, que pelos meus cálculos, era de 2 graus. A essa altura, com vento de 40 km/h, só conseguia voar com as mãos fechadas. Sentia frio em todo o corpo e às vezes as pernas e os braços tremiam, mas era nas mãos a sensação mais desagradável. Em um momento, abri a mão direita e olhei para ela, estava roxa e toda enrugada, anestesiada e dormente, mal sentia o toque. Se antes eu estava quase, agora estava completamente arrependido de não ter levado as luvas. Como podem as andorinhas voarem tão alto e em tamanho frio? Foi uma descoberta interessante.

Eu uso o meu celular como auxilio no voo com um aplicativo que me informa altitude absoluta, direção e intensidade do vento e razão de planeio. O meu variometro é apenas acústico e fui eu mesmo que fabriquei. Distraído com o celular, me assustei quando uma andorinha acertou o bordo esquerdo da asa. Olhei para trás na esperança de vê-la voando em segurança, mas eram muitas e foi muito rápido. Percebi o quanto estava sendo intrometido ali e segui adiante. Espero que ela tenha se salvado, caso contrário toda essa experiência não terá valido a pena.

Ainda na núvem, o meu celular apagou. Já havia lido no manual que a altitude máxima de operação era de 3000m, e num frio de 2 graus e umidade de 100% dentro da núvem, pensei que pudesse perdê-lo para sempre. Mas não sei ao certo o porque, depois de sair da núvem ele voltou a funcionar. Pouco tempo depois o aviso de 20% de bateria apareceu. Putz! Não duraria até o fim do voo. O tracklog (registro do trajeto de voo) ficaria incompleto e eu voaria só com o vario acústico. Passei então a desligar a tela do celular para economizar bateria e ligava de vez em quando para verificar se acertava a altitude pela sensação térmica. Eu estava me calibrando. Precisaria da garantia de estar a 2900m de altitude se eu quizesse cruzar o lago Paranoá e chegar na esplanada, a última e a mais crítica travessia. Havia passado a noite anterior fazendo os cálculos para identificar a altura necessária para atravessar em segurança.

Tirei por cima da reserva e o frio de 7 graus dos 3000m passou a ser quentinho. Podia abriar as mãos de novo. Fiquei baixo no final da reserva, com 500m do chão. Torcendo por uma boa térmica, encontrei um pi-pi-pi (térmica fraca) que depois de um bom tempo se transformou em uma boa ascendente. Antes de chegar ao topo, meu celular já tinha se apagado com 2h 24min de voo. Estaria agora só com o meu guerreiro vario acústico, que acabara de passar por uma prova de fogo na núvem. Eu estava acumulando 27 voos, e ele nunca me deixara na mão desde o dia da minha formatura a não ser quando ainda utilizava uma bateria fraca e deligava antes do fim do voo, mas não era culpa dele. Não esperava tanto do primeiro protótipo.

Em direção ao pivô central em Planaltina, local do até então recorde de Andorinha de 46km conseguido pelo Rodrigo no ano anterior, ele próprio me contacta pelo rádio perguntando a minha posição. "Alto na reserva!", eu disse. Ele me respondeu, "Ótimo! Mas não vá me tirar o recorde!". "Acho que já era Rodrigo". Eu sei que na verdade ele estava vibrando, doido para me ver ir além. Junto com ele estavam a Josi (sua esposa e a resgate mais simpática que eu conheço), o Paulão, o Cosme e o Paulo, que voltando da rampa, passaram a me seguir de carro desse ponto em diante, me dando apoio.

O vento que apesar de fraco estava doido durante todo o dia, e me apareceu norte, nordeste, leste e sudeste, não estava me ajudando nesse momento. Cheguei a ver duas queimadas a 500m de distância uma da outra em que a fumaça de uma derivava para oeste e a outra para leste, e assim ficaram por mais de 15 minutos, enquanto eu observei. Estou ainda tentando entender que fenômeno explica isso.

Cheguei no pivô central sem altura para cruzar um trecho de 5km de pouso muito difícil. Ralação total a 400m do chão, só catando bolhas sem realmente subir, fiquei me sustentando no que tinha. Paciência! Vamos lá! Uma hora a gente sobe! Tão perto de bater o recorde, que há pouco parecia garantido, iria pousar no mesmo lugar que o Rodrigo? Paciência, calma, concentração! Fui derivando um pouco mais pra frente, com medo de perder o pouco que me segurava no ar. Mais bolhas, vamos parar um pouco por aqui. Algum tempo de pi-pi-pi falhado e ousando caminhar um pouco mais pra frente, finalmente algo mais constante, embora fraco, apareceu. Paciência de novo, naquele ritmo, levaria 30 minutos para subir. Fiquei com cara de espera, procurando na vista distração. As poucas núvens a frente que se formavam e rapidamente desformavam indicavam que a condição estava enfraquecendo. E o Sol já a 20 graus, o dia e a janela de voo estavam acabando.

Ganhei somente a altura para cruzar a área sem pouso pela esquerda, desviando por cima de pequenas chácaras onde eu procuraria um quintal qualquer para pousar em caso de emergência. Sem perceber que já havia batido o recorde, o meu objetivo mesmo era a esplanada, cheguei muito baixo do outro lado. Sem sinal de térmicas, eu me via a menos de 250m do chão. Com o meu "tanque" no fim da reserva, o voo estava quase acabando mais cedo do que eu gostaria. Avancei em direção a pista, prestes a abrir o cinto de voo e ficar preparado para pouso foi quando a salvadora maior do dia apareceu. O pi-pi-pi começou e fui derivando para o miolo dela que estava constante e mais rápido que as últimas térmicas. Quando se começa a subir estando baixo assim, o chão se afasta rápido. Tem poucas sensações tão prazerosas no voo livre como essa.

Nesse momento eu já via claramente a Torre de TV Digital que parecia um palito de fósforo, e a encosta da subida de Sobradinho que eu teria que cruzar para chegar em Brasília. Volta e meia me passava pela cabeça uma certa euforia por estar próximo do objetivo, mas ao mesmo tempo eu pensava que precisava ter calma, não era hora de pensar nisso. Estava com dificuldade de subir além dos 800m desde a reserva e precisaria voltar pelo menos aos 2900m do nível do mar para cruzar o lago paranoá, da Torre de TV para a esplanada, percurso de 12km. Essa era a atravessia crítica porque quase não há pouso, apenas o lago, casas e prédios. Teria que encontrar uma forma de subir, sem ainda saber como, isso ficou em espera. Tinha que ganhar outra batalha antes. Avançar até a Torre de TV. Tão perto e tão longe, me passou pela cabeça.

Não sei ao certo como perdi a térmica, tentei procurá-la um pouco, mas não insisti. Com 600m, parti adiante. Em cima da mata, à esquerda da estrada, na altura do estádio de Sobradinho, já baixo outra vez, encontrei outra salvadora. Essa foi ainda mais rápida e constante que a anterior.

Estava na hora de decidir o que fazer para atravessar o lago. Tinha uma queimada em frente a unidade de Guerra Eletrônica do Exército e uma grande núvem sobre o condomínio RK. Eram os únicos sinais de atividade térmica. Nunca havia voado em queimada, e já tinha ouvido dizer que em muitas nada sobe e a núvem formada por ela, que eu já observava a distância, se dissipara. A núvem do RK era grande, mas também já fazia tempo que ela estava ali sombreando a fonte da térmica. Não sabia se eu chegaria a tempo de pegá-la ainda funcionando.

Subi o máximo que eu pude, cerca de 1000m acima do solo, e a térmica desapareceu. Fiquei sem saber se ela acabara ou se eu a perdera. Parti para o RK de olho no fogueiral. Chegando quase em baixo da núvem, se houvesse ascedente eu já deveria estar subindo. Não quis procurar por ela, desviei para a queimada. Algo me dizia que seria melhor.

Cheguei nela baixo, com 300m, era tudo ou nada. Dava para ouvir o barulho do fogo que avançava pelo cerrado em uma arco de 100m de raio. Devia fazer não mais que 30 minutos que iniciara. Já bem próximo, o vario começou a apitar de forma tímida. Dei duas enroscadas e fui em direção a fumaça. Pá! Pancada na asa! Subi dezenas de metros em segundos! Turbulência, a asa sacodia para todos os lados e eu brigava para mantê-la na melhor ascendência. Foligem entrando nos olhos, fechei a viseira do capacete. Em pouco tempo, meus olhos começaram a arder por causa da fumaça. Passei a voar de olhos fechados, abrindo de 10 em 10 segundos para verificar o tráfego aéreo, concentrado em escutar o vario e no que os ventos queriam comigo. A minha Andorinha é comportada. Nunca me deu um susto. Ela respeita ao meu comando e ao vento. Toda situação adversa, ou fui por minha causa ou por causa do vento. As minhas brigas são sempre com o vento, não com ela.

Quanto mais subia, mais rápido e constante ficava. Subi na vertical como em um elevador de arranha-céu que dá frio na barriga. O vario apitava de um forma que eu só escutara até então na bancada de testes. Eu conhecia aquele barulho triririri que indicava que estava próximo ao limite configurado de 12m por segundo de velocidade vertical. Eu ia chegar na base da núvem! Eu ia voltar para os 4000m e atravessar o lago do topo! O passaporte para a esplanada estava garantido! Êxtase total!!

Quando a visibilidade da cidade estava reduzida ao ponto de quase não enxergá-la por estar próximo da camada de inversão térmica, saí para a minha tirada final. Por cima do lago norte eu vi tudo o que eu queria. A casa onde eu morava até pouco tempo e de onde eu olhava o céu desde o primeiro dia do meu curso de voo imaginando o momento em que passaria por cima dela voando, a casa do Conrado e da Nath onde estou hospedado escrevendo esse relato, a casa do Pohy e da minha querida amiga Priscila, o prédio do meu escritório e o morrote no lago sul onde eu aprendi a voar. Por um certo tempo eu voei na direção entre a esplanada e o morrote, enquanto eu decidia onde pousar. Tinha altura para chegar nos dois. Como um bom pássaro sempre volta ao ninho, eu queria ir para o morrote. Mas meus amigos que me acompanhavam diziam pelo rádio que uma festa na esplanada já estava sendo armada e que os amigos já estavam chegando. Eu não tive opção, seria esplanada.

O que mais me impressionou na tirada final foi ver, enquanto alto, uma cidade tranquila e calma, onde não se via pessoas, e o único movimento era dos carros que pareciam mais parados do que andando, e ao final da descida em espiral para perder altura em cima da rodoviária e iniciar a aproximação, observei uma cidade viva, com pessoas andando nas ruas, os carros muito mais rápidos, tudo parecia apressado, e o burburinho da cidade já se ouvia. Que experiência interessante.

A aproximação para pouso em cima da Biblioteca Nacional me permitiu observar bem de perto os grandes prédios dos bancos públicos do setor bancário com seus grandes ventiladores de ar condicionado girando. Imaginei quem estaria me vendo pela janela, funcionários públicos em meio ao expediente que não poderiam fazer ideia da conquista que eu estava prestes a realizar.

Às 17:04h, após 4h e 27min de voo, com uma brisa nordeste, e ao canto dos Quero-Queros que bateram em revoada, o planeio final foi no ponto exato que eu queria, e antes que pusesse os pés no chão eu já ouvia os gritos dos companheiros presentes. A comemoração já se iniciara. Foi de arrepiar! O sonho estava realizado.

Voo de 72 km realizado em 28/08/2014 com uma Andorinha amarela.

Daniel Guedes
03/09/2014






5 comments:

Anonymous said...

Parabéns Daniel. Muito legal seu relato.
Um vôo que certamente virou referência.
Muuto legal você mesmo ter feito seu vario. Eu também diz o meu primeiro mas foi em 1987.
Bons voos.
Abraço
Marcos Predebon

Giovani said...

Belo Voo e excelente relato.
Vou guardar na minha coleção de relatos de voo de asa.
Irado!!
Parabéns!!

Henrique Frasson said...

Parabéns Daniel! Adorei o relato e o fato inédito! É assim que se faz!

Valter FG said...

Voei com vc nesse relato, parabéns. Pelo vôo!!!
Valter Fausto

Erick Vils said...

Wow, belíssimo relato Daniel.

Quanto às fumaças em direção oposta provavelmente era influência de ascendentes na região. Se estava uma virada para a outra a fonte térmica deveria estar no meio delas.